
Após tanto tempo, por aqui regresso e atendo ao meu anseio por expressão. Neste instante, sequer há sinal da alvorada. Despertei, como de costume, para me arrojar ao trabalho. Novamente, canções soavam em minha mente, e “infinita tristeza late en mi corazón” se repetiu por algumas vezes, até ser substituída por “La vérité fait mal” (a verdade dói).
Inexpressivo, subi ao carro, abri o portão e saí. Lá fora havia bastante névoa e breu. Naquele momento, desliguei o carro e senti a mim mesmo. Eu estava anulado, arrasado. Não havia vontade dentro de mim; meus desígnios estavam nulos. Eu me sentia como lá fora: um borrão. Regressei à garagem, voltei para dentro de casa, liguei o notebook e aqui estou, já não mais em uma narração pretérita.
Onde foram parar os meus desígnios?
Fui um ser apaixonado, de extrema coragem, que se atirou nas mais intensas situações, sempre cheio de sonhos e vontades. O que houve? Não consigo situar no tempo, mas, em algum momento, me desencaixei de qualquer narrativa, lugar, ideia ou sentido e estou à deriva.
Ao decidir parar hoje e sentir esse vazio, escolhi apenas atender a um sentimento familiar que me persegue, mas que, talvez por temor, nunca me voltei para encará-lo de frente.
Topar o vazio e perceber que você se tornou o abismo pode ser gélido, mas é isto: há um buraco negro em meu peito que engole qualquer coisa, até mesmo a luz.
Não há mais motivos para que eu caminhe. Eu poderia terminar tudo aqui, neste momento, e não passar de uma poeira cósmica em um zeptosegundo no continuum. Mas tenho dúvidas de que realmente deva ser assim.
Agora retirarei esta roupa de trabalho e irei caminhar numa floresta. As experiências sensoriais que aquele lugar me proporciona sempre me trouxeram respostas.
Espero realmente poder aparecer mais por aqui.